domingo, janeiro 29, 2012

Parte de Ti

Doce presença eucarística, juntos, fazemos comunhão. Fecho os olhos e sem perceber, abro-os para um plano espiritual desconhecido. É um despertar lento, profundo, silencioso. Chama-se "estado de Graça". Naturalmente um sussurro vem em forma de brisa de verão. Se concentrar-me bem, posso ouvi-lo assoviar. Mais que isso: posso ouvi-lo falar. De olhos fechados sinto o calor aquecer minhas mãos e ergue-las para mais uma adoração. Meus lábios se dividem para dar vida a uma oração. O volume toma conta da minha voz. Na brisa, o sussurro chama "Amanda, Amanda". O estado da graça se aprofunda para o estado do êxtase. O coração dispara, agita-se como o mar revolto. "Amanda, Amanda" .As mãos tremem sem sentir frio algum. "Amanda, Amanda". A voz proclama, o igreja silencia. Abro os olhos. O cenário é o mesmo. As pessoas são as mesmas e os pecados também. Onde está a mudança? Naquela que ouviu "Amanda, Amanda". Isso não é Deus, é fazer parte de Deus.
Amanda Souza

terça-feira, janeiro 03, 2012

Adeus

Quando fiz dezoito, achei que o mundo seria meu. Afinal, fazer dezoito é um marco na vida de uma pessoa. Antes nunca o tivesse feito. Quando fiz dezoito, vi todos meus heróis imaginários indo embora. Deus, não tive tempo de me despedir dos que me fizeram sorrir por dezoito anos quando ninguém me via.
Era necessário mesmo, tirá-los de mim? A única coisa que me prendia entre os dois mundos, o da realidade e o que existia dentro da minha cabeça, foi arrancada de mim. De certo modo, meus amigos imaginários faziam minha infância permanecer um pouco mais em mim, e eu um pouco mais nela.
De repente, cumprimento-os pela manhã, mas nenhum som surge. Não há mais o doce "Bom dia Amanda!" que provinha dos lábios das amigas que nunca me deixariam por motivos óbvios: sem minha imaginação elas não existiriam. Que profunda angustia é dar-se conta de que fala com as paredes, e o pior: decepcionar-se por não haver resposta.
Achei que seria um bloqueio temporário, que logo eles voltariam, meus ávidos seguidores que nunca existiram. Mas aos poucos fui dando-me conta que não habitavam mas em minha mente. Eles se foram. Deixaram-me só neste mundo de loucos.
Uma noite, olhei para meu reflexo no espelho. Lá estava eu, enrolada entre uma coberta marrom e um edredom rosa fitando a mim mesma. De re pente lá estavam eles: Melissa, Ivete, Derick, Chuck, Jennifer, Raíssa, Jessica... Eles saiam do espelho e sorriam para mim. Sim, eles sorriam. Um a um, a galope, saiam e caminhavam até a porta sem dizer nada. Eu gritava, pedia, chorava, suplicava para que não se fossem. Como preciso de vocês. Um a um, aglomeravam-se na porta de entrada. Até que saiu o último amigo do espelho. Esse provindo da essência da minha infância, sendo tão velho que mal me lembro seu nome.
Então, os aplausos. Todos eles me aplaudiam, assoviavam e gritavam meu nome. Eu apenas chorava.
Aos poucos eles desapareciam. Foram ficando cada vez mais claros até que sumiram. Não houve tempo para uma última conversa. Não houve tempo para um último adeus.
Agora estou tendo que encontrá-los no mundo de verdade, tendo consciência que jamais acharei. Minhas obras psíquicas eram perfeitas.
Queria tê-los de volta só mais um vez. Mas todas as vezes que digo "Olá", ou recebo meu eco como resposta, ou, pior, recebo silêncio.